terça-feira, 27 de março de 2012

Revendo o "Milagre Brasileiro" (anos 90)


 Embalado em uma campanha que procurava arregimentar simpatia para o regime militar (1964 -1985), mas não só por isso, o Brasil viveu um período de crescimento que nos levaria, também por outros descuidos, à grande inflação que perdurou até o início dos anos 90.
 Este período tem uma característica de marketing e mídia parecidos com o de agora, “ninguém segura este país”, e uma unanimidade muito parecida, mas as diferenças estruturais são gritantes e já podemos enumerar três delas: hoje temos um saldo em poupança de dólares na casa dos 250 bilhões, a nossa produção em geral é muito mais diversificada (leia neste blog o artigo sobre commodities), e o consumo interno, com a ascensão da classe pobre ao consumo foi muito representativa nesses últimos anos.
 Em razão disso passamos quase ilesos na crise americana de 2008, que se estendeu ao mundo, a chamada bolha de consumo ianque, que será razão de um outro artigo nos próximos dias.
 Como afirmamos, havia sim um marketing para consolidar o regime militar, que não passava nem perto do poder dos marqueteiros de agora, mas no fundo também havia a intenção séria de fazer o Brasil crescer muito rapidamente, se aproximar das grandes potências.
 Não tínhamos a posição confortável de hoje, pertencendo ao G20 – 20 países mais desenvolvidos -, ser do BRIC, países emergentes que, em tese, serão as potências do futuro (Brasil, Rússia, Índia e China), sem contar que nos demais grupos de países desenvolvidos, de uma forma ou de outra, sempre somos ouvidos.
  A história
 Nosso país tinha muitas restrições para receber investimentos estrangeiros, Jânio Quadros, depois seu vice e sucessor Jango Goulart, não tinham muita credibilidade para o investimento externo. O primeiro por indefinições políticas – chegou condecorar Che Guevara - e o segundo pelo seu discurso de esquerda. O mundo seriamente dividido e em guerra (fria) entre direita (os EUA e seus aliados) e URSS (a Rússia, os países sobre seu regime comunista, e aliados), levava muito em conta a simpatia por uma ou outra tendência. Nesta fase – consolidando o pós segunda guerra mundial - o dinheiro já estava muito mais nas mãos dos aliados ocidentais, de direita, sendo congelados aos que se alinhavam com pensamento esquerdizante, vide Cuba.
Esse período de instabilidade foi de 1961, quando toma posse e renuncia no mesmo ano Jânio Quadros, a 1964 quando Jango Goulart, seu vice e sucessor, é deposto pelo golpe militar. Mas também herdava um pouco das dívidas de Juscelino Kubitscheck a partir de 1956, que mencionaremos em seguida.
 A fórmula
O personagem que pilotaria essa transformação de um país pobre e dependente para um país do futuro, seria Antônio Delfim Netto o eterno ministro do regime (da Fazenda de 1967 – 1974, mas ocupou outras pastas, inclusive a de embaixador), depois deputado por mais de 20 anos. Polêmicas à parte este paulista formado na PUC foi um dos economistas mais respeitados da história do Brasil, merece ter sua biografia estudada.
A fórmula consistia, após reconquistar a simpatia do mundo ocidental (EUA e Europa, enfim os aliados), fazer voltar os investimentos no Brasil e num ritmo acelerado. O pensamento do grupo era que, com o regime político duro, com o comunismo afastado, o Brasil poderia vir a se tornar uma potência, a América toda vivia esse pensamento.
Acontece que, se ainda somos um país chamado de risco (variou de muito para pouco risco nos últimos tempos, mas os EUA também o são, não se preocupe), imagine à época, quando nossa produção era pífia e nossas reservas praticamente zeradas. O spread – custo de empréstimo para cobrir o risco – estava nas alturas, mas isso naquele momento não importava, a meta era: Brasil potência e já, então vamos tomar todos os empréstimos possíveis e investir onde for possível, gerar produção, moradia, emprego, etc. O mundo financeiro certamente comemorou essa porteira aberta, ainda que o risco de calote, muito comum à época, ser também muito grande.
Esses investimentos foram feitos também nas estatais brasileiras e, através de programas de subsídios, possibilitou a vinda de muitas empresas estrangeiras, as chamadas multinacionais.
Os salários baixos eram atrativos, sendo muito mais compensador produzir aqui do que em países desenvolvidos. O lucro no final era bem maior. As reivindicações salariais eram reprimidas à força e as greves totalmente proibidas.
A primeira fase foi uma maravilha, ufanismo, copa de 1970, “ninguém segura este país”, com dinheiro (emprestado) sobrando, vamos acelerar.
É preciso destacar que o dinheiro foi mais para o segmento industrial, forte gerador de empregos e muitos programas de exportação foram criados, abrindo também meia porta para as importações, principalmente para as que gerassem a chance da exportação. Exemplo – se uma peça era importada para o sistema produtivo que gerasse venda ao exterior, tinha seus tributos isentados.
A consequência
Acelerando o meio circulante, principalmente com dinheiro emprestado, e o pior, sem reserva suficiente para sustentá-lo, inaugurou-se à época um máquina que se tornaria um monstro: a máquina de imprimir moeda.
Com a renegociação da dívida cada vez maior e mais difícil, e com juros cada vez mais altos, dado o risco que o país representava em termos de crédito, os preços dispararam inaugurando o maior período inflacionário que se tem notícia em nossa história. Os registros mundiais também nos contemplam.
Para se ter uma ideia do que isso representou, entre 15 de fevereiro e 15 de março de 1990, a inflação no Brasil foi de 84,32%. De março de 1989 a março de 1990 ela chegou a 4.853,90%, ou seja, quase 5 mil por cento. Difícil até de explicar.
 Um outro complicador, que só foi definitivamente inibido em 2000, com a Lei de Responsabilidade Fiscal, é que os municípios, principalmente os grandes, e os estados fundamentalmente, podiam tomar empréstimos também, lançando papéis sem lastro nenhum (garantia de resgate). Com isso aumentavam a dívida pública e a injeção de dinheiro no mercado, sem a devida administração do tesouro central, ajudando a desvalorizar as combalidas moedas da época, que cada hora tinham um valor e um nome diferentes.
 A curva final
Só no início dos anos 1990, com o lançamento do Plano Real, tendo o presidente Itamar Franco e o seu ministro da fazenda, e depois presidente Fernando Henrique Cardoso, como artífices, as coisas se estabilizaram. Um engenhoso plano que envolvia um indexador, chamado URV, plano totalmente aberto e com apoio dos “donos” do dinheiro, se não, não vingaria, acabou com essa grande ciranda.
Muitos fatos ficaram de fora deste modesto retrospecto, entre eles o governo Juscelino Kubitscheck (1956-1961), que, como os seus altos gastos públicos, teria inaugurado a desestabilidade. Juscelino merece destaque, não só pela construção de Brasília, mas também pelo plano de crescer 50 anos em 5, um primeiro estopim para o tema desta análise que ora fazemos: crescimento, não importa o custo.
Temos que ressaltar o choque mundial do petróleo, com a falta do produto por especulação e sua disparada nos preços, a estabilidade dos primeiros quatro anos do período militar e seus progressos, o calote pelo não pagamento da dívida externa em 1985, o que deixaria os juros ainda mais altos.
Sem se esquecer dos sucessos e insucessos do governo Collor.
A forte concentração de renda entre os mais ricos e pode se dizer também dos mais expertos, também merece um outro capítulo.
O ressurgimento do sindicalismo, que acabou por eleger o presidente Lula e a sua grande popularidade, que nos trás aos dias hoje.
Enfim, a economia passa longe de ser uma ciência exata, mas a sua importância no equilíbrio social é inegável.

Nenhum comentário:

Postar um comentário