segunda-feira, 9 de abril de 2012

O sapato ainda é o motor de Franca - SP

Ele toma conta da chave do cofre da maior prefeitura da região nordeste de São Paulo, que tem Orçamento de R$ 1,6 bilhão. Aos 62 anos, o francano Francisco Sérgio Nalini, secretário da Fazenda da Prefeitura de Ribeirão Preto desde outubro do ano passado, diz que já viveu pelo menos três vidas ou 186 anos.

Um dos três Franciscos de Nalini adora finanças, orçamento e tributação. Contas, enfim. O outro Francisco ama as artes, especialmente o cinema, que conheceu nos tempos de infância assistindo a filmes hoje cults como Fantasma da Ópera [produção de 1925, mudo, em preto e branco] direto da cabine de projeção da Fundação Allan Kardec. O terceiro é um apaixonado por jornalismo, que já trabalhou como repórter de TV, de rádio, de jornal, como colunista e apresentador. Mas dá para acrescentar nessas vidas outras paixões do múltiplo Nalini, como dar aulas, o interesse por novas tecnologias (criou três empresas online e se orgulha de ter atualmente 7.300 amigos no Facebook), as inclinações para a política, a devoção pela religião espírita e o amor incondicional pela cidade em que nasceu.
Sobre a religião, conta que já nasceu espírita. “Eu vivia na fundação, meu pai trabalhava lá, meus pais eram espíritas. Não me lembro de ter tido a chance de escolher outra religião e, felizmente, o espiritismo me escolheu”, diz. Segundo ele, os períodos mais atribulados de suas três vidas ocorreram justamente quando esteve mais longe do espiritismo.
Sobre Franca, diz que a cidade é “diferenciada”, única. Sua teoria é que Franca teve que se tornar autossustentável em todos os campos por estar muito longe das grandes capitais São Paulo e Rio de Janeiro. A escolha pelo calçado como base da economia, segundo o economista Nalini - que também trabalhou em indústrias calçadistas -, foi determinante na vida da cidade, já gerou muitas crises, mas pode, em uma curva do futuro, se mostrar um grande acerto.
Filho de Leonel, contador da Fundação Allan Kardec, e da professora aposentada Maria, Nalini se viu apartado da amada Franca do Imperador por “acidente”, após passar em um concurso da Receita Federal.
Nalini ocupa o cargo de secretário da Fazenda em Ribeirão pela segunda vez. A primeira foi em 2003, no go-verno do então petista Gilberto Maggioni. Mas, antes, já tinha “bagagem de administração”: por cinco anos, ocupou vários cargos na Prefeitura de Franca, na gestão de Maurício Sandoval Ribeiro (1989 a 1992), incluindo o de chefe de gabinete.
Na tentativa de diminuir o déficit da prefeitura comandada por Dárcy Vera (PSD), Nalini lançou no mês passado a Nota Fiscal Ribeirão-pretana, inspirada na Nota Fiscal Paulista. No início do ano, implantou também o IPTU premiado. Leia a seguir os principais trechos da entrevista feita no gabinete do secretário em Ribeirão.
Comércio da Franca - Como foi a infância do senhor em Franca?
Francisco Sérgio Nalini - Eu nasci no Vale dos Bagres, mas minhas primeiras lembranças são de morar na rua José Marques Garcia, ao lado da Fundação Allan Kardec, onde meu pai era contador. Com a fundação eu tenho muitas histórias. A casa de saúde tinha um cineminha em 35 mm e eu assisti lá a muitos filmes que hoje são cults, como O Fantasma da Ópera e Flash Gordon. Quem comandava o projetor era um enfermeiro chamado Francisco Cintra. Os filmes passavam como terapia para os doentes mentais durante o dia e para o público da região às noites, mas eu assistia durante o dia, com seu Francisco, na cabine. Tinha um outro Francisco na fundação importante pra mim. Ele era descendente de escravos, estava internado e nem sabia o próprio sobrenome. Eu passava muito tempo ao lado dele ouvindo suas histórias incríveis.
Comércio - O senhor é espírita?
Nalini - Sim. Eu vivia na fundação, meu pai trabalhava lá, meus pais eram espíritas e eu acordei espírita. Não me lembro nem de ter tido chance de escolher outra religião. Felizmente, o espiritismo me escolheu. Eu tenho o espiritismo como uma religião cristã como outras e tenho um respeito imenso pelas religiões cristãs, inspiradas em Cristo. Todas trabalham com a mesma mensagem, com a necessidade de remissão das culpas. Hoje, faço palestras de auto-ajuda dentro do espiritismo. Em Franca, eu já fiz duas.
Comércio - O senhor então é um homem de múltiplas faces?
Nalini - Sempre vivi três pessoas ao mesmo tempo, três papéis. Nunca deixei de ser contador, de ser economista, trabalho com isso desde 1966. Comecei no Calçados Terra e passei para a Sândalo. Trabalhei também na contabilidade do Pestalozzi. Outra face que eu cultivo é a de jornalista. Desde 1973, eu trabalho na área. Fui repórter de campo de futebol na Difusora e na Imperador. Cobri o basquete de Franca até em jogos no exterior.
Comércio - E a terceira face?
Nalini - Minha terceira paixão é dar aulas. Fui professor de contabilidade por 15 anos no Jesus Maria José e também dei aulas no Alto Padrão e na Unifran.
Comércio - O senhor fez algum curso de jornalismo ou de rádio?
Nalini - Não. Meu pai já era da área. Ele era redator do Jornal A Nova Era, ligado à fundação Allan Kardec. Tive coluna no Diário da Franca sobre arte, coluna de página inteira sobre repercussão das notícias da semana no Comércio da Franca nos anos 80. No rádio, eu tive um programa chamado Horário Nobre, aos sábados, que foi reconhecido como um dos melhores da cidade.
Comércio - Como era se dividir entre contas, rádio, jornal, artes?
Nalini - Vou te dizer. Nós fizemos o melhor evento cultural de Franca, a Fearte, Feira de Arte de Franca. Foram duas edições e 30 dias de eventos. Trouxemos pra Franca o Balé Stagium, o colunista Lourenço Diaféria, um festival de cinema francês, muita coisa. Fizemos também um movimento para impedir a demolição do Hotel Francano, mas a gente acabou não conseguindo. Essas atividades culturais me levaram a ser secretário da Fundação Cultural Mário de Andrade [órgão foi fechado na primeira gestão do prefeito Sidnei Rocha]. Fui ainda assessor de imprensa da Francal. É por isso tudo que quando fiz 60 anos, os amigos disseram que eu, na verdade, estava fazendo 180 anos.
Comércio - Por que o senhor não continuou no jornalismo? Não era considerada uma profissão séria?
Nalini - Olha, era uma área em que os veteranos ganhavam pouco, tinham dificuldades para receber. Imagine os focas? E eu não montei uma estrutura pra sobreviver na imprensa, como colegas fizeram. Caso da Patrícia e do Sidnei, por exemplo que, aliás, eles foram meus padrinhos de casamento. Tinha deputado, prefeito, muita gente na festa. Politicamente, eu era ninguém, mas tinha muitos amigos, como o pessoal do Magazine Luiza, a Luizinha, o seu Onofre, o Wagner Garcia, o Pelegrino... Franca é uma cidade muito diferenciada, que está no fim de uma linha. Precisa ter coragem pra dizer isso: ali termina o Estado de São Paulo. Mas, isso fez de Franca uma cidade totalmente diferenciada. Os grupos sertanejos são melhores do que os outros, a culinária é mais gostosa, as pessoas são mais amigas. O fato de estar longe das grandes capitais, como São Paulo e Rio, obrigou a cidade a produzir o que ela precisava. Ela é auto-suficiente.
Comércio - E como o senhor explica o fato de Franca estar abaixo de outras cidades paulistas até menores em índices econômicos, como renda, e até saúde e educação?
Nalini - Eu discordo. Acho que a cidade está sempre na média e em algumas coisas, como saneamento básico, está em primeiro. O problema é que Franca tem sua economia baseada em dois produtos: café e calçados, que são altamente influenciados pelo que ocorre no exterior. O cafeicultor ganha dinheiro um ano e fica três sem ganhar nada. E o sapato é um artesanato puro. Tudo que acontece no mundo recai sobre o sapato. A Argentina, quando breca as exportações, breca os sapatos, a China decide fabricar sapatos a preços baixíssimos. O sapato caro de Franca enfrenta concorrência no mundo inteiro, até da Itália... Eu não acompanhei de perto, mas sei que Franca tentou diversificar, sair do sapato masculino para o feminino, para a produção de bolsas, de lingerie, mas o sapato masculino ainda domina. Tomara que uma hora isso renda o que a cidade merece. Tem muita gente que fala que, se tivesse escolhido um outro produto, que não o calçado, a história de Franca poderia ser bem diferente. Mas história é assim, nós não a dominamos e sempre tem as curvas do futuro. Espero que, em uma dessas curvas do futuro, Franca ainda venha se beneficiar muito dessa escolha.
Comércio - Sendo tão apaixonado pela cidade, por que o senhor trocou Franca por Ribeirão Preto?
Nalini - Foi acidental. Eu passei num concurso da Receita Federal e tive que me mudar em 1984 para assumir o cargo. Eu consegui passar numa concorrência muito grande, eram 32 mil pessoas e 500 vagas. Primeiro, fui para o Porto de Rio Grande, no RS. Depois de um ano, tive que fazer um “pit stop” em São Paulo. Em 86, fui transferido pra Ribeirão Preto, onde exerci várias funções, até ser nomeado delegado da Receita pelo então secretário, Osiris Lopes Filho. Fiquei três anos e meio na função. Depois, por cinco anos, fui conselheiro do Ministério da Fazenda em Brasília. Me aposentei em 2001, mas, claro, não parei de trabalhar.
Comércio - Antes de tudo isso, o senhor chegou a trabalhar na Prefeitura de Franca, não é?
Nalini - Nos anos 80, fiquei cinco anos na prefeitura. Primeiro, fui da Fundação Cultural Mário de Andrade, depois assumi a assessoria de imprensa. O prefeito era o Maurício Sandoval Ribeiro, um dos seres humanos mais fantásticos que eu conheci na minha vida, pela honestidade, pelo discernimento. Da assessoria de imprensa passei para a assessoria de agricultura e pecuária, fiz até uma elogiada Expoagro. Depois, assumi a vaga de chefe de gabinete, com a saída do Realindo Júnior. Foram anos avassaladores.
Comércio - O senhor tomou posse numa época em que as finanças de Ribeirão estavam em cheque. Havia uma previsão de um déficit acima de R$ 100 milhões que, no fechamento do ano acabou se reduzindo a R$ 50 milhões. Depois, o balanço revelou que o déficit real foi mesmo de R$ 100 milhões. Que milagre de números é esse?
Nalini - Isso é facilmente explicável. Primeiro, no ano passado não tivemos déficit. O orçamento de 2011 se completou: as despesas ficaram iguais às receitas. De onde nasceram os R$ 50 milhões, então? O fechamento consolidado, somando todos os organismos da administração direta e indireta, foi de R$ 54 milhões negativo. Ou seja, o déficit de Ribeirão foi de R$ 54 milhões.
Comércio - Então, nesse primeiro balanço se usou o superávit de autarquias para diminuir o déficit da administração direta?
Nalini - É, mas na verdade, publicamos o que permite a Lei de Responsabilidade Fiscal. O déficit orçamentário de Ribeirão foi de 54 milhões. Aí quando se publicou o balanço, verificou-se que administração direta tinha um déficit de R$ 94 milhões. Mas, como não houve déficit do orçamento de 2011, se estancou o déficit financeiro.
Comércio - Então, esses R$ 94 milhões vieram de dívidas de anos anteriores?
Nalini - Isso. Eu costumo exemplificar assim: há um ano atrás, você pediu dinheiro para o seu cunhado e ficou devendo R$ 5 mil pra ele. O ano todo você passa empatado, mas aí pede R$ 5 mil para uma prima para pagar o cunhado e continua devendo. Se no próximo ano você não tiver uma receita maior que a despesa, você pede dinheiro ao banco para pagar a prima e aí fica devendo para o banco e o bolo da dívida vai crescendo.
Comércio - E qual a diferença de trabalhar na Prefeitura de Ribeirão e na de Franca?
Nalini - Hoje, não dá para dizer. Eu nunca trabalhei com o Sidnei Rocha, mas confesso que seria bem intrigante por conta daquele gênio explosivo dele...
Comércio - O senhor mantém casa em Franca? Com sua experiência, aceitaria um convite para ser secretário de Finanças na cidade?
Nalini - (Risos). Isso é um convite? Não, não tenho mais casa em Franca, mas mantenho muitos amigos na cidade.
Comércio - Qual é o seu time do coração?
Nalini - Francana. Sempre. Verde e branco.


(Entrevista dada a Eliane Silva, editora do jornal Comércio da Franca, edição de 8 de abril de 2012)

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